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  • Metadata

    • Document type
      Review (monograph)
      Journal
      Mélanges de la Casa de Velázquez
      Author (Review)
      • Cardina, Miguel
      Language (Review)
      Italiano
      Language (Monograph)
      Italiano
      Editor (Monograph)
      • Focardi, Filippo
      • Groppo, Bruno
      Title
      L’Europa e le sue memorie
      Subtitle
      Politiche e culture del ricordo dopo il 1989
      Year of publication
      2013
      Place of publication
      Roma
      Publisher
      Viella
      Number of pages
      313
      ISBN
      978-88-6728-018-6
      Subject classification
      Military History, Social and Cultural History
      Time classification
      20th century → 1980 - 1989, 20th century → 1990 - 1999, 21st century
      Regional classification
      Europe
      Subject headings
      Europa
      Weltkrieg <1939-1945>
      Kollektives Gedächtnis
      Geschichte 1989-2010
      Geschichtspolitik
      Kongress
      Padua <2007>
      Original source URL
      http://mcv.revues.org/7297
      recensio.net-ID
      eacebc74386642bbbacf5b84ac3743ab
      DOI
      10.15463/rec.1412908188
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Filippo Focardi / Bruno Groppo (eds.): L’Europa e le sue memorie. Politiche e culture del ricordo dopo il 1989 (reviewed by Miguel Cardina)

O tema da memória tornou-se, nas últimas duas décadas, num eixo particularmente instigador de debates públicos, sobretudo em sociedades atravessadas por um passado recente marcado pela violência e a guerra, e de produções académicas que analisam criticamente as apropriações e silenciamentos do passado no presente. Com organização de Filippo Focardi e Bruno Groppo, o livro L’Europa e le sue memorie. Politiche e culture del ricordo dopo il 1989 dá mais um relevante contributo nesse sentido. Trata-se, neste caso, de uma obra que agrupa doze capítulos, sete deles dedicados a estudos de caso (Itália, França, Espanha, Alemanha, Polónia, Croácia e Rússia) e os restantes elaborando reflexões comparativas sobre áreas da Europa ou abarcando tendencialmente a generalidade do continente.

Não obstante o título da obra, ela centra-se essencialmente na Segunda Guerra Mundial, percorrendo o modo como o evento se foi publicamente inscrevendo nas sociedades europeias, com particular enfoque para o período que vai da década de 1990, com as mutações resultantes da queda do Muro de Berlim e do «socialismo real», até à atualidade. Uma das teses centrais do livro é precisamente a de que esse reajuste produziu mudanças no que concerne ao entendimento da Segunda Guerra Mundial e dos atores nela envolvidos. Com efeito, e como é salientado na introdução, se a partir da segunda metade da década de 1940 a memória da guerra foi dominantemente baseada na responsabilização da Alemanha nazi e na valorização das resistências nacionais, identificadas idealmente com o conjunto da nação (levando, por exemplo, à desconsideração de experiências de articulação entre nazis e as diferentes elites nacionais), esse perceção mudou nas décadas seguintes.

Tal como Foccardi e Groppo evidenciam no texto introdutório, a emergência a partir da década de 1960 do Holocausto enquanto experiência do «mal absoluto» viria a outorgar centralidade ao fenómeno do extermínio dos judeus, desencadeando uma nova vaga historiográfica e memorialística e alimentando discussões sobre o tema que penetraram no domínio legal. Em segundo lugar, e igualmente alavancado na substituição do paradigma do «herói da resistência» para o paradigma da «vítima», emerge no contexto da Guerra Fria —e ganha lastro particular nos países da Europa Central e Oriental no contexto pós-1989— uma equiparação do comunismo com o nazismo que leva a uma releitura da guerra e um reenquadramento do legado antifascista.

Os capítulos da obra centram-se na análise dos processos de memorialização deste passado em diferentes contextos sociais, geográficos e políticos. Patrizia Dogliani analisa os impactos diferenciados da guerra consoante os países, as deslocações produzidas, a violência sexual desferida sobre as mulheres e os processos de revisão desse passado. Centrado no caso italiano, Filippo Focardi observa como a hegemonia do paradigma antifascista —assente na legitimidade fundadora da Resistência— foi desafiada a partir da década de 1980 por narrativas públicas e oficiais que vieram substituir o binómio fascismo/antifascismo pelo binómio totalitarismo/democracia. Valeria Galimi examina a memória da Segunda Guerra Mundial em França e, de forma mais lata, a aplicação de «leis da memória» (um tema que regressará no capítulo a cargo de Luigi Cajani) e os debates que estas desencadearam sobre a função do historiador e o papel da História.

Em sentido diferente corre o texto de Gabriele Ranzato. Focado na Guerra Civil Espanhola e no Franquismo, parte da ideia de que hoje prevaleceria em Espanha —nomeadamente no campo historiográfico e nos meios de comunicação, considera-se— uma visão extremamente negativa do que foi o franquismo, circunscrita «às suas formas e instrumentos de limitação da liberdade e sobretudo à sua obra repressiva» (p. 109) e desvalorizadora das medidas antidemocráticas do governo republicano. Alternativamente, o autor valoriza o abrandamento da repressão —ou a falta de necessidade de aplicá-la com a extensão que ocorrera até 1950, poderíamos contrastar— e as alterações ocorridas no interior do regime. Gustavo Corni, por sua vez, aborda as mutações que foram ocorrendo na memória da Segunda Guerra nas duas Alemanhas e Carla Tonini analisa a memória da guerra e a memória do comunismo na Polónia pós-1989. O capítulo de Mila Orlic detém-se no caso da Croácia, marcado pela memória da Jugoslávia mas também pela guerra ocorrida na primeira metade da década de 1990. Dedicado à Rússia, o texto de Nikolay Koposov toma como referência a lei sobre a memória proposta em 2009, examinando o seu contexto e os seus efeitos.

Os últimos capítulos do volume abrem de novo a lente para produzir análises de matriz transnacional. O texto de Bruno Groppo oferece um olhar interpretativo sobre o atual «boom da memória», avançando na análise dos modos através dos quais «existe uma divisão profunda, no campo da memória, entre a Europa Ocidental e a Oriental» (p. 220). Luigi Cajani escreve sobre a relação entre história, memória e direito penal, com enfoque no caso francês e no panorama legislativo da União Europeia. Por fim, os capítulos de Pieter Lagrou e de Enzo Traverso refletem sobre a emergência da categoria de «vítima» como instância ética e sobre a memória do Holocausto como paradigma fundamental de entendimento do século xx europeu, num contexto histórico de retração das grandes utopias.

Lendo a obra fica, porém, a sensação de que a Europa de que se fala é uma Europa desprovida do legado colonial. Ele surge praticamente omisso no livro, com a excepção da menção à memória da guerra da Argélia na França, no capítulo a cargo de Valeria Galimi. Apesar disso, estamos na presença de um livro importante, não apenas pela capacidade de agrupar analiticamente uma série de estudos de caso no quadro comum acima descrito, mas também por um enfoque inovador nas chamadas «políticas da memória», que toma em conta, de forma integrada, as investidas de caráter político e legislativo e um conjunto mais amplo de dinâmicas de matriz social e cultural.